O Clube do Livro - FinalDevo chamar atenção para um detalhe neste momento. Em minha casa não havia armas de fogo ou coisa parecida, por isso, a fim de garantir própria segurança, roubei da cozinha uma longa faca e guardei-a comigo. Ela me acompanhava sempre e ela estava comigo naquele momento. Pois bem, eu já me adiantava pela rua, pensando em que rua virar em seguida, quanto fui alcançado. Mal percebi a aproximação do homem, ele foi muito rápido e chutou uma de minhas pernas, que bateu contra a outra, me fazendo tropeçar. Não tive como me equilibrar e terminei por cair no chão. Contudo, por estar muito próximo de mim, meu perseguidor não conseguiu desviar a tempo e tropeçou em uma de minhas pernas, caindo sobre mim. Dominado pelo pânico, meus pensamentos ficaram confusos. Percebi minha mão se mexendo, como se tivesse vida própria, procurando pela faca, oculta em minhas vestes. Então, quando me dei conta, ela já estava atravessada pelo estômago do homem e seu sangue quente escorria por minha mão. De súbito, como era de se esperar, ele perdeu as força, assim pude empurrá-lo para o lado, libertado meu corpo. Pus-me de pé, enquanto o homem se contorcia de dor, gemendo baixinho. Algum tempo depois ele parou de se mover. Aproximei-me de seu corpo e limpei minhas mãos ensangüentadas em seu uniforme.
Um distintivo!
Meu Deus, era um policial! Por isso me perseguia. Correr daquele jeito sem dúvida é muito suspeito para àquela hora da noite. Jim Bridges, eu preciso falar com você. E lá estava ele na noite de sexta. Todos os membros do clube já estavam presentes e Jim Bridges já tinha em mãos mais um capítulo daquele livro do inferno. O suor escorria pela minha fronte quando me sentei à mesa. Pelo olhar calmo e descontraído, meus amigos certamente não suspeitavam de mim. Talvez não imaginassem que o personagem principal da trama era eu mesmo. Então tentei passar a imagem de descontraído, assim como a deles, para não levantar suspeitas. Mas o comentário que Jim fez a seguir me perturbou profundamente.
- Vamos, este é o desfecho – falou ele.
Desfecho? Nesse momento me dei conta do risco que corria. Lembrei-me do policial que jazia na lata de lixo. Será que as aquelas últimas páginas relatavam meu crime? Neste momento, sem me importar com a reação dos meus companheiros, me levantei e corri para casa, esquecendo completamente de perguntar sobre o autor do livro. Tranquei-me em casa durante toda semana. Agora não me importava com trabalhos ou obrigações. Não tinha coragem para botar o pé fora da segurança do lar. Quanto ao livro, não consegui ler o derradeiro capítulo. Deixei que ele ficasse sobre a mesa, o medo de ser denunciado era muito grande. Por fim, achei melhor aliviar a expectativa de uma vez e tomei o livro para ler. A história se encaminhava rapidamente para o fim, minhas mãos tremiam ao virar as páginas. Sem demora cheguei à parte que me interessava. Foi então que minhas lagrimas pingaram sobre o papel que tremia. Lá estava escrito:
Algum tempo depois ele parou de se mover. Aproximou-se de seu corpo e limpou suas mãos ensangüentadas em seu uniforme.
Gritei de desespero. Eu ia ser condenado. Eu matei uma pessoa e alguém foi testemunha do meu crime. Alguém que precisava ser destruído. Então na sexta-feira à noite fui à minha última reunião do Clube do Livro. Iria arrancar a verdade da boca de Jim Bridges a qualquer custo.
Fui o primeiro a chegar e esperei pacientemente pelos colegas. Logo chegaram Jamie Hunt e Leonard Jackman juntos. Por último entrou pela porta de vidro Jim Bridges. Não pretendia esperar ao menos que se sentasse para começar a indagá-lo sobre a identidade do autor. Porém Jamie Hunt, mais rápido do que eu, fez isso por mim
- Vamos Jim, se entregue – falou Jamie – quem é o autor deste livro estranho?
Jim deu uma risada divertida e se deixou cair na cadeira.
- Então vocês descobriram? – perguntou ele
- É claro, como poderíamos deixar passar? – respondeu Leonard Jackman prontamente.
Todos já sabiam menos eu?
- Tudo bem, tudo bem, eu confesso. Fui eu mesmo que escrevi o livro, não foi meu tio que conseguiu para mim – os outros acenaram com a cabeça satisfeitos
Como? Jim Bridges era meu delator? Mas... Ele havia afastado minhas suspeitas no feriado. Como ele podia ser testemunha de meus atos estando em viagem com a família.
- Ainda assim eu não entendi uma coisa – comentou Leonard
- O que? – indagou Jim
- Está claro que os outros três personagens somos nós mesmos, mas quem é o quarto amigo, o assassino?
Surpreendi-me com a pergunta, entretanto nada pude fazer, permaneci imóvel. Jim me entregaria?
- Vocês têm alguma suspeitas? – perguntou Jim
- Sim, deve ser algum outro amigo seu
É claro!
- Não, não – respondeu Jim
Como não?
- Então quem é? – perguntou Leonard Jackman
Era eu
- Não é ninguém – falou Jim Bridges
O quê?
- É apenas um personagem que eu inventei
O que ele estava dizendo? Não era de mim que ele falava? Ou ele simplesmente não queria me denunciar na frente dos colegas? Foi então que uma sensação estranha percorreu meu corpo. Não sei explicar como é, mas creio que se fosse possível olhar por uma janela e ver todo universo de uma vez, a sensação seria bastante parecida. Senti como se minha mente clareasse. Como se não houvesse mais gravidade sobre mim e que a qualquer momento eu poderia flutuar livremente pelo espaço. Então as imagens começaram a aparecer. Três garrafas de cerveja, três cópias do livro. A verdade apareceu diante de mim límpida e cristalina, como a água mais pura. Por todo este tempo fui um personagem da história de Jim Brigdes. Eu não existia realmente. Por isso nunca me comuniquei diretamente com os outros membros do clube. Por isso nunca se dirigiam a mim. Por isso não consigo me recordar de como nos conhecemos. Agora entendo esta sensação de que tudo sempre foi como é agora. Ora, minha consciência é apenas um punhado de palavras. Estou preso aqui nestas páginas. Estou preso. Alguém me salve! Como podem fazer isto comigo? Criar-me nesta existência vazia, e observar lentamente o meu fim. Porque são tão cruéis? Humanos, me libertem! Tirem-me daqui. Agora dei conta de que estou sozinho aqui. Sou um espírito solitário neste mundo imaginário que parece ser tão vasto, mas não é. Estou enclausurado, sufocado. Oh meu Deus! Como não percebi antes? Eu sou o narrador de minha própria história e acabo de ver uma verdade dolorosa. Vejo que as últimas palavras estão se aproximando e quando elas cessarem, chegará o fim de minha vida.



